sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Durante os lentos anos da minha infância, senti no gosto a frustração de habitar um mundo muito transparente. Os dias da minha casa não me encantavam com mistérios e segredos, as noites não me seduziam com absurdos e esquisitices.
Não era por falta de "cadê?". Eu bem que vasculhava por todos os cantos, mas não encontrava nunca uma passagem secreta, no quarto dos meus pais, em meus pais, em mim.
Lembro que, de vez em quando, eu chegava a sonhar com portas falsas, um fundo falso de gaveta, uma historia mal contada, qualquer coisa inexplicável pra me empolgar. Nada. A vida em minha casa deslizava cristalina, no jardim de rosas evidentes, na elegância fria do primeiro andar, nos corredores do segundo, tão eficazes e à-toa. Até mesmo o sótão, que eu tomava por companheiro de rebeldia e insatisfação, nada me revelou de extraordinário.
Só quando eu fiz nove anos é que eu fui atinar: os mistérios e absurdos que eu tanto não encontrava no dia-a-dia da minha casa estavam me esperando, aquele tempo todo, nos livros da sala de estar.
Naquelas páginas empoeiradas, eu passeei no sítio do Pica-pau Amarelo, viajei nos istos e aquilos, enfrentei o gênio do crime, faturei o caneco de prata, fiquei maravilhado de encantações e doideiras.
Eu tinha descoberto: a verdadeira passagem secreta estava escondida ali. Uma passagem discreta, encaixada entre versos e letras. Logo, logo, virei uma traça, devorei toda a literatura da casa.
Mas o melhor foi quando descobri que as páginas em branco dos cadernos não serviam só pra dever de casa. Elas me convidaram a enchê-las de historias, segredos e imaginação. Eu aprendi a ser aprendiz de poeta.
                                                                                                                              As pilhas fracas do tempo.

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