quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

De outros abrigos vieram histórias de gente cantando "Deutschland über Alles" ou discutindo, em meio ao abafo de seu próprio hálito. Nada disso aconteceu no abrigo dos Fiedler. Nesse local, houve apenas medo e apreensão, além do canto mudo dos lábios de papelão de Rosa Hubermann.
Pouco antes de as sirenes assinalarem o fim, Alex Steiner - o homem do impassível rosto de madeira - persuadiu as meninas a soltarem as pernas de sua mulher. Conseguiu estender um braço e agarrar a mão livre do filho. Kurt, ainda estoico e de olhos fixos, segurou-a e apertou um pouquinho mais a mão da irmã.
EM pouco tempo, todo o mundo no porão estava de mãos dadas, e o grupo de alemães formava um círculo irregular. As mãos frias derretiam-se nas quentes e, em alguns casos, a sensação de outra pulsação humana era transportada. Atravessava as camadas de pele enrijecida e pálida. Alguns fecharam os olhos, à espera de extinção final, ou na esperança de um sinal de que o bombardeio havia enfim terminado. 
Será que essas pessoas mereciam algo melhor?
Quantas delas haviam perseguido outras ativamente, seguindo o rastro do olhar de Hitler, repetindo suas frases, seus parágrafos, sua obra? Seria Rosa Hubermann responsável? Ela, que escondia um judeu? Ou Hans? Será que todos mereciam morrer? As crianças? 
A resposta a cada uma destas perguntas me interessa muito, embora eu não possa permitir que elas me seduzam. Só achei que toda aquela gente deve ter intuído minha presença nessa noite, excetuadas as crianças menores. Eu era a sugestão. Eu era o conselho, com meus pés imaginários entrando na cozinha e descendo o corredor.
Como tantas vezes acontece com os seres humanos, ao ler a seu respeito nas palavras da menina que roubava livros, senti pena deles, embora não tanta quanto senti dos que recolhi em vários campos nessa época. Os alemães nos porões eram dignos de pena, sem dúvida, mas ao menos tinham uma chance. Aquele porão não era um banheiro. Eles não tinham sido mandados para lá para tomar banho. Para essas pessoas, a vida ainda era alcançável.

No círculo desigual, os minutos se escoaram, pesados.
Liesel segurava a mão de Rudy e a de sua mamãe. 
Só um pensamento a entristecia.
Max.
Como Max sobreviveria, se as bombas chegassem á rua Himmel?
Olhando ao redor, ela examinou o porão dos Fiedler. Era muito sólido e consideravelmente mais profundo que o da rua Himmel, 33.
Em silêncio, ela fez a pergunta ao pai.
Você também está pensando nele?
Tenha ou não registrado a pergunta muda, Hans fez um rápido aceno de cabeça para a menina. Minutos depois, o aceno foi seguido pelas três sirenes da paz temporária.
As pessoas da rua Himmel, 45 arriaram de alívio.
Algumas fecharam os olhos e tornaram a abri-los.
Um cigarro passou de mão em mão.
No instante em que estava a caminho dos lábios de Rudy Steiner, foi arrancado por seu pai.
- Você não, Jesse Owens.
As crianças abraçaram seus pais, e levou muitos minutos para que todos percebessem plenamente que estavam vivos - e que continuariam vivos. Só então foi que seus pés subiram a escada, em direção à cozinha de Herbert Fiedler.
Lá fora uma procissão caminhava em silêncio pela rua. Muitos erguiam os olhos e agradeciam a Deus por sua vida. 

Ao chegarem em casa, os Hubermann rumaram diretamente para o porão, mas Max aparentemente não estava. A lamparina parecia pequena e laranja, e eles não conseguiriam vê-lo nem ouvir uma resposta.
- Max?
- Ele sumiu.
- Max, você está aí?

- Estou aqui.

Originalmente, os três acharam que as palavras tinham vindo de trás das mantas de proteção e das latas de tinta, mas Liesel foi a primeira a vê-lo à sua frente. 
O rosto calejado de Max camuflara-se entre o material de pintura e os panos. Ele estava sentado ali, com olhos e lábios perplexos.
Quando todos se aproximaram, voltou a falar.
- Não pude evitar - disse.
Foi Rosa quem respondeu. Agachou-se para fitá-lo.
- De que você está falando, Max?
- Eu... - lutou ele para responder. - Quando ficou tudo quieto, subi até o corredor, e havia uma frestinha aberta na cortina da sala... dava para eu ver o lado de fora. Espiei, só por alguns segundos.
Fazia vinte e dois meses que ele não via o mundo lá fora. 
Não houve raiva nem censuras.
Foi o pai quem falou.
- E o que lhe pareceu? 
Max levantou a cabeça, com enorme tristeza e enorme assombro.
- Havia estrelas - disse.- Elas queimaram meus olhos. 

Quatro deles. 
Duas pessoas de pé. As outras duas permaneceram sentadas. 
Todas tinham visto uma ou duas coisas nessa noite.
Aquele lugar era o verdadeiro porão. Aquele era o medo real. Max recompôs-se e ficou de pé, prestes a voltar para trás das mantas. Desejou-lhes boa noite, mas não chegou a entrar embaixo da escada. Com a permissão da mão, Liesel ficou com el até de manhã, lendo Uma Canção no Escuro, enquanto ele desenhava e escrevia em seu caderno.
Numa janela da rua Himmel, escreveu Max, as estrelas puseram fogo em meus olhos.  

A menina que roubava livros

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