segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O Manuscrito Sagrado dos Malakins

Poucos sabem como começou. Ou o que havia antes. Não que isso importe, realmente. Porque não houve um antes. Aconteceu em um tempo em que o próprio tempo não existia, e a matéria não passava de um grão de energia, flutuando na sombra do espaço.
Guerra. Luz e trevas. Lei e ordem. Claro e escuro. Bem e mal.
Sobreveio a explosão. Indescritível, Inimaginável. Ensurdecedora.
O universo se expandiu, lançando fragmentos na negritude, formando ondas de poeira cósmica, dando origem às dimensões paralelas. Mundos inteiros foram criados. Estrelas nasceram e morreram, nebulosas surgiram nos oceanos de plasma. Galáxias se condensaram.
Por bilhões de anos, os alados vagaram sozinhos, intocáveis no santuário infinito. E, quando o sexto dia terminou, Deus estava orgulhoso de seu trabalho. De todas as maravilhas, a espécie humana foi a que ele mais adorou: sua criação podia aprender, evoluir e amar.
Yahweh partiu para o descanso do sétimo dia e deixou aos cinco arcanjos a tarefa de comandar os celestes, reger o paraíso e servir à humanidade, sem interferir em seu curso. Mas inflados de ciúmes e luxúria, os primogênitos invejaram a raça mortal. Miguel, o Príncipe dos Anjos, decidiu que os homens não eram herdeiros dignos de Deus e resolveu tomar a terra de assalto. Enviou assassino, fomentou cataclismos, explodiu vulcões, provocou terremotos e congelou o planeta.
O paraíso se dividiu. A primeira revolta foi esmagada, e os conspiradores, expulsos. A tensão entre gigantes cresceu, culminando numa batalha devastadora, que secionou para sempre hostes divinas. Lúcifer, o Arcanjo Sombrio, desafiou a autoridade onipotente de Miguel, atraindo um terço das legiões para sua causa. Mas suas ambições eram igualmente malignas e, vencidos, os arcanjos caídos foram atirados ao inferno, onde aguardam o momento oportuno para completar sua vingança.
Milênios mais tarde, os focos da rebelião, sufocados no princípio, se reacenderiam numa nova chama. O arcanjo Gabriel, servo mais leal do Príncipe Celeste, recebeu a missão de descer à Haled para planejar uma nova catástrofe. Mas, em seus corpos terrenos, os anjos são vulneráveis aos sentimentos carnais. Pela primeira vez, ele provou o calor da alma humana e entendeu o amor que sentia por Deus. Repudiou as ordens do irmão e assim começou uma nova guerra, a guerra civil, a eterna disputa pelo paraíso, que persiste até hoje.
Reunidos no Primeiro Céu, Gabriel e os exércitos rebeldes inciaram uma gigantesca campanha contras as forças legalistas, estacionadas na quinta camada. O Quarto Céu, Acheron, transformou-se numa violenta zona de combate, onde os querubins lutam dia e noite há mais de dois mil anos.
Quando os revoltosos avançaram, derrubando fortalezas e ganhando posição, Miguel, temeroso de perder o trono, ordenou o Haniah, o Retorno, determinando que todos os seus aliados que atuavam ou estivessem no plano material regressassem imediatamente. Com o contingente inimigo aumentando, Gabriel fez o mesmo, e a Haled foi abandonada. Os vórtices de  acesso às dimensões superiores, foram fechados, restando alguns poucos, guardados por poderosos vigias.
A casta dos elohins, cuja natureza é viver entre os homens, obteve permissão especial para continuar no mundo físico, assim como outros desgarrados, que se recusaram a voltar. A única condição era que não intervissem no rumo da guerra e estivessem prontos para servir seus arcanjos quando o dever os chamasse.
Enquanto o paraíso queima num embate de sangue e espadas, os dois lados estabeleceram um armístico na terra - uma trégua frágil e delicada, que pode desmoronar a qualquer instante.
Isolada no Sexto Céu, a ordem dos Malakins traçou suas previsões.
Aquela não seria mais uma guerra. Havia começado.
Era o princípio do fim.

Filhos do Éden - Herdeiros de Atântida

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Estou cansada de viver como se já fosse uma pessoa adulta e madura. Gostaria de voltar a ser criança - uma garotinha de seis anos que caiu da bicicleta. Gostaria de fazer cara de choro e correr aos berros para a cozinha, onde minha mãe me ergueria do chão, me daria um forte abraço e beijaria meu joelho esfolado. Eu pararia de chorar e tomaria leite com chocolate para a dor passar. Essa é uma das coisas que as pessoas não nos ensinam quando falam de crescer: como lidar com as dores que não passam com um beijo.
Soul Love - À noite o céu é perfeito.

sábado, 27 de outubro de 2012

"Enquanto escrevo estas palavras, reflito sobre o Mack que sempre conheci: um sujeito bastante comum e certamente sem nada de especial, a não ser para os que o conhecem de verdade. Vai fazer 56 anos e não chama a atenção, está ligeiramente acima do peso, é meio careca, baixo e branco - uma descrição que serve para muitos homens dessas redondezas. Você provavelmente não o notaria ao seu lado enquanto ele cochila no trem que o leva à cidade para a reunião semanal de vendas. Faz a maior parte de seu trabalho num pequeno escritório em sua casa na  Wildcat Road. Vende alguma engenhoca de alta tecnologia que eu não pretendo entender: trecos eletrônicos que de algum modo fazem tudo andar mais depressa, como se a vida já não fosse rápida demais."

- A Cabana
"Mack está casado com Nan há pouco mais de 33 anos - na maior parte do tempo, eles são felizes. Diz que ela salvou sua vida e pagou um preço alto por isso. Por algum motivo que não dá pra compreender, Nan parece amá-lo agora mais do que nunca, apesar de eu ter a sensação de que ele a magoou de algum modo terrível nos primeiros anos. Acho que, assim como a maior parte das nossas feridas tem origem em nossos relacionamentos, o mesmo acontece com as curas, e sei que quem olha de fora não percebe essa bênção."
- A Cabana

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Boas Vindas

Quero dar Boas Vindas, a mais nova integrante desse blog, Ana Carolina Gasparotto *u*

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Não era primeira vez que irrompia uma discussão à mesa do café da manha na rua dos Alfeneiros número 4. O Sr. Válter Dursley fora acordado nas primeiras horas da manhã por um pio alto que vinha do quarto do seu sobrinho Harry.
 - É a terceira vez esta semana! - berrou ele à mesa - Se você não consegue controlar essa coruja, teremos que mandá-a embora!
Harry tentou explicar, mais uma vez.
 - Ela está chateada. Está acostumada a voar ao ar livre. Se ao menos pudesse solta-lá à noite...
 - Eu tenho cara de idiotas? - rosnou tio Válter, um pedaço de ovo pendurado na bigodeira. - Eu sei o que vai acontecer se você soltar essa coruja.
Ele trocou olhares assustados com sua mulher, Petúnia.
Harry tentou argumentar, mas suas palavras foram abafadas por um alto e prolongado arroto dado pelo filho do Dursley, Duda.
 - Quero mais bacon.
 - Tem mais na frigideira, fofinho - disse tia Petúnia, voltando os olhos úmidos para o filho maciço. - Precisamos alimenta-lo bem enquanto temos oportunidade... Não gosto do jeito daquela comida da escola...
 - Bobagem, Petúnia, nunca passei fome quando estive em Smeltings - disse tio Válter animado - Duda come bastante, não come, filho?
Duda, que era tão gordo que a bunda sobrava para os lados da cadeira da cozinha, sorriu e virou-se para Harry.
 - Passe a frigideira.
 - Você esqueceu a palavra magica - disse Harry irritado.
O efeito dessa simples frase no resto da família foi inacreditável. Duda ofegou e caiu da cadeira com um baque que sacudiu a cozinha inteira; a Sra. Dursley soltou um gritinho e levou a mão as mãos a boca; o Sr, Dursley levantou-se com um salto, as veias latejando nas têmporas.
 - Eu quis dizer "por favor"! - explicou Harry depressa. - Não quis dizer...
 - QUE FOI QUE JÁ LHE DISSE - trovejou o tio, borrifando saliva sobre a mesa. - COM RELAÇÃO A DIZER ESSA PALAVRA COM "M" NA NOSSA CASA?
 - Mas eu..
 - COMO SE ATREVE A AMEAÇAR DUDA! - berrou tio Válter, dando um soco na mesa.
 - Eu só...
 - EU O AVISEI! NÃO VOU TOLERAR A MENÇÃO DA SUA ANORMALIDADE DEBAIXO DO MEU TETO!
 Harry olhava do rosto purpúreo do tio paro o rosto pálido da tia, que tentava por Duda de pé.
 - Está bem - disse Harry -, esta bem...
Harry Potter e a câmara secreta

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O mito de Drácula reinventado num brilhante romance sobre o mal, a loucura e o desejo

O conde Laszlo, jovem e aristocrático médico húngaro, estabeleceu-se em Paris, em meados do século 19. Seu objetivo era conhecer as extraordinárias pesquisas sobre hipnose e a histeria, que agitavam a comunidade científica européia.
A estada de Laszlo na França, porém, será muito mais que uma viagem de estudos: fascinado tanto com as descobertas da medicina quanto a permissividade dos costumes, o rapaz mergulha num universo de loucura, dando vazão a impulsos até então desconhecidos. Aqui estão os seus diários: mostram um homem atormentado, que, ao penetrar nos labirintos da mente humana, descobre o lado mais obscuro de seu próprio ser.
Um lado que, uma vez libertado, provocará uma trilha de sangue, violência e morte...

-A vida secreta de Laszlo, Conde Drácula

domingo, 11 de março de 2012

Tudo o que ouvia, porém - tudo o que me permitia ouvir - ,era o pulsar do sangue na minha cabeça. Tudo que via era a pipa azul. O único cheiro que sentia era o da vitória. Salvação. Redenção. Se baba estivesse enganado, e existisse mesmo um Deus, como me diziam no colégio, então Ele ia deixar que eu vencesse. Não sabia com que objetivo o outro garoto estava competindo, talvez só para exibir os seus dotes. Mas, para mim, aquela era a única chance de me tornar alguém que era olhado, e não apenas visto; que era escutado, e não apenas ouvido. Se existia mesmo um Deus, Ele ia guiar o vento, deixar que soprasse para mim, e assim, com um puxão na corda, eu ia me livrar da minha dor, dos meus anseios. Tinha aguentado muito, chegado longe demais. E, de repente, em um piscar de olhos, a esperança virou certeza. Eu ia ganhar. Era só uma questão de tempo.
O caçador de pipas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Durante os lentos anos da minha infância, senti no gosto a frustração de habitar um mundo muito transparente. Os dias da minha casa não me encantavam com mistérios e segredos, as noites não me seduziam com absurdos e esquisitices.
Não era por falta de "cadê?". Eu bem que vasculhava por todos os cantos, mas não encontrava nunca uma passagem secreta, no quarto dos meus pais, em meus pais, em mim.
Lembro que, de vez em quando, eu chegava a sonhar com portas falsas, um fundo falso de gaveta, uma historia mal contada, qualquer coisa inexplicável pra me empolgar. Nada. A vida em minha casa deslizava cristalina, no jardim de rosas evidentes, na elegância fria do primeiro andar, nos corredores do segundo, tão eficazes e à-toa. Até mesmo o sótão, que eu tomava por companheiro de rebeldia e insatisfação, nada me revelou de extraordinário.
Só quando eu fiz nove anos é que eu fui atinar: os mistérios e absurdos que eu tanto não encontrava no dia-a-dia da minha casa estavam me esperando, aquele tempo todo, nos livros da sala de estar.
Naquelas páginas empoeiradas, eu passeei no sítio do Pica-pau Amarelo, viajei nos istos e aquilos, enfrentei o gênio do crime, faturei o caneco de prata, fiquei maravilhado de encantações e doideiras.
Eu tinha descoberto: a verdadeira passagem secreta estava escondida ali. Uma passagem discreta, encaixada entre versos e letras. Logo, logo, virei uma traça, devorei toda a literatura da casa.
Mas o melhor foi quando descobri que as páginas em branco dos cadernos não serviam só pra dever de casa. Elas me convidaram a enchê-las de historias, segredos e imaginação. Eu aprendi a ser aprendiz de poeta.
                                                                                                                              As pilhas fracas do tempo.
Meu querido Ross
Hoje você me perguntou como parar de ser criança. Como se tornar um homem. Essas palavras me tocaram muito, pois me lembro de ter feito a mesma pergunta à minha mãe. "Como alguém sai da infância e começa a ser adulto?" Decidi escrever para você porque as cartas vêm da alma, de uma forma que as palavras faladas às vezes não conseguem.
Posso lhe dizer uma coisa, meu querido filho. Seja verdadeiro consigo mesmo. Seja sincero. Seja justo. Ame seus amigos e sua família. Trate-os com carinho e respeito. O mundo é cheio de complexidades e desafios, mas você conseguirá superá-los se lembrar de quem você é. No fim do dia, olhe para dentro da sua alma e se pergunte: "De alguma forma eu consegui mudar o mundo hoje para melhor?" Se puder dizer que sim, então você estará no caminho não somente para se tornar um homem, mas também para se tornar um homem bom. Amo você, Ross.
Sua mãe 

Garotas da Rua Beacon - Cartas da Alma

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

- Meu Deus, Rudy...
Inclinou-se, olhou para seu rosto sem vida, e então beijou a boca de seu melhor amigo, Rudy Steiner, com suavidade e verdade. Ele tinha um gosto poeirento e adocicado. Um gosto de arrependimento á sombra do arvoredo e na penumbra da coleção de ternos do anarquista. Liesel beijou-o demoradamente, suavemente, e quando se afastou, tocou-lhe a boca com os dedos. Suas mãos estavam trêmulas, seus lábios eram carnudos, e ela se inclinou mais uma vez, agora perdendo o controle e fazendo um erro de cálculo. Os dentes dos dois se chocaram no mundo demolido da rua Himmel.
Liesel não disse adeus. Foi incapaz de fazê-lo, e após mais alguns minutos ao lado do amigo conseguiu levantar-se do chão. Fico impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando.

A menina que roubava livros
A maioria das pessoas acha que a morte é o fim.
O fim da vida - dos bons tempos -, o fim de...
bem, praticamente tudo.
Mas essas pessoas estão enganadas.
Completamente enganadas.
Eu sei muito bem. Faz quase um ano que morri.

Radiante
Toda minha vida, tive medo
de homens velando sobre mim.

Suponho que o primeiro homem a velar por mim tenha sido meu pai, 
mas ele sumiu antes que eu pudesse recordá-lo.

Por alguma razão, quando eu era menino, gostava de brigar. Grande parte das vezes, eu perdia. Outro menino, ás vezes com sangue pingando do nariz, erguia-se acima de mim.

Muitos anos depois, precisei me esconder. Procurava não dormir, porque tinha medo de quem estaria lá quando eu acordasse. 
Mas tive sorte. Era sempre meu amigo.

Quando estava escondido, eu sonhava com certo homem. O mais difícil foi quando viajei para ir ao encontro dele.

Por pura sorte e depois de muitas passadas, consegui.

Fiquei dormindo lá por muito tempo. 
Três dias, disseram-me...
E o que encontrei ao acordar? 
Não um homem, mas uma outra pessoa a me vigiar.

Com o passar do tempo, a menina e eu descobrimos que tínhamos coisas em comum.

Mas há uma coisa estranha.
A menina diz que eu pareço outra coisa.

Agora moro num porão.
Os sonhos ruins ainda vivem no meu sono.
Uma noite, após meu pesadelo habitual, uma sombra ergueu-se sobre mim. Ela disse: - Conte-me o que você sonha. - E eu contei.

Em troca, ela me explicou de que eram feitos seus próprios sonhos.

Agora, acho que somos amigos, essa menina e eu. Em seu aniversário, foi ela quem deu um presente - a mim.
Isso me fez compreender que o melhor vigiador que conheci não é um homem... 
A menina que roubava livros
De outros abrigos vieram histórias de gente cantando "Deutschland über Alles" ou discutindo, em meio ao abafo de seu próprio hálito. Nada disso aconteceu no abrigo dos Fiedler. Nesse local, houve apenas medo e apreensão, além do canto mudo dos lábios de papelão de Rosa Hubermann.
Pouco antes de as sirenes assinalarem o fim, Alex Steiner - o homem do impassível rosto de madeira - persuadiu as meninas a soltarem as pernas de sua mulher. Conseguiu estender um braço e agarrar a mão livre do filho. Kurt, ainda estoico e de olhos fixos, segurou-a e apertou um pouquinho mais a mão da irmã.
EM pouco tempo, todo o mundo no porão estava de mãos dadas, e o grupo de alemães formava um círculo irregular. As mãos frias derretiam-se nas quentes e, em alguns casos, a sensação de outra pulsação humana era transportada. Atravessava as camadas de pele enrijecida e pálida. Alguns fecharam os olhos, à espera de extinção final, ou na esperança de um sinal de que o bombardeio havia enfim terminado. 
Será que essas pessoas mereciam algo melhor?
Quantas delas haviam perseguido outras ativamente, seguindo o rastro do olhar de Hitler, repetindo suas frases, seus parágrafos, sua obra? Seria Rosa Hubermann responsável? Ela, que escondia um judeu? Ou Hans? Será que todos mereciam morrer? As crianças? 
A resposta a cada uma destas perguntas me interessa muito, embora eu não possa permitir que elas me seduzam. Só achei que toda aquela gente deve ter intuído minha presença nessa noite, excetuadas as crianças menores. Eu era a sugestão. Eu era o conselho, com meus pés imaginários entrando na cozinha e descendo o corredor.
Como tantas vezes acontece com os seres humanos, ao ler a seu respeito nas palavras da menina que roubava livros, senti pena deles, embora não tanta quanto senti dos que recolhi em vários campos nessa época. Os alemães nos porões eram dignos de pena, sem dúvida, mas ao menos tinham uma chance. Aquele porão não era um banheiro. Eles não tinham sido mandados para lá para tomar banho. Para essas pessoas, a vida ainda era alcançável.

No círculo desigual, os minutos se escoaram, pesados.
Liesel segurava a mão de Rudy e a de sua mamãe. 
Só um pensamento a entristecia.
Max.
Como Max sobreviveria, se as bombas chegassem á rua Himmel?
Olhando ao redor, ela examinou o porão dos Fiedler. Era muito sólido e consideravelmente mais profundo que o da rua Himmel, 33.
Em silêncio, ela fez a pergunta ao pai.
Você também está pensando nele?
Tenha ou não registrado a pergunta muda, Hans fez um rápido aceno de cabeça para a menina. Minutos depois, o aceno foi seguido pelas três sirenes da paz temporária.
As pessoas da rua Himmel, 45 arriaram de alívio.
Algumas fecharam os olhos e tornaram a abri-los.
Um cigarro passou de mão em mão.
No instante em que estava a caminho dos lábios de Rudy Steiner, foi arrancado por seu pai.
- Você não, Jesse Owens.
As crianças abraçaram seus pais, e levou muitos minutos para que todos percebessem plenamente que estavam vivos - e que continuariam vivos. Só então foi que seus pés subiram a escada, em direção à cozinha de Herbert Fiedler.
Lá fora uma procissão caminhava em silêncio pela rua. Muitos erguiam os olhos e agradeciam a Deus por sua vida. 

Ao chegarem em casa, os Hubermann rumaram diretamente para o porão, mas Max aparentemente não estava. A lamparina parecia pequena e laranja, e eles não conseguiriam vê-lo nem ouvir uma resposta.
- Max?
- Ele sumiu.
- Max, você está aí?

- Estou aqui.

Originalmente, os três acharam que as palavras tinham vindo de trás das mantas de proteção e das latas de tinta, mas Liesel foi a primeira a vê-lo à sua frente. 
O rosto calejado de Max camuflara-se entre o material de pintura e os panos. Ele estava sentado ali, com olhos e lábios perplexos.
Quando todos se aproximaram, voltou a falar.
- Não pude evitar - disse.
Foi Rosa quem respondeu. Agachou-se para fitá-lo.
- De que você está falando, Max?
- Eu... - lutou ele para responder. - Quando ficou tudo quieto, subi até o corredor, e havia uma frestinha aberta na cortina da sala... dava para eu ver o lado de fora. Espiei, só por alguns segundos.
Fazia vinte e dois meses que ele não via o mundo lá fora. 
Não houve raiva nem censuras.
Foi o pai quem falou.
- E o que lhe pareceu? 
Max levantou a cabeça, com enorme tristeza e enorme assombro.
- Havia estrelas - disse.- Elas queimaram meus olhos. 

Quatro deles. 
Duas pessoas de pé. As outras duas permaneceram sentadas. 
Todas tinham visto uma ou duas coisas nessa noite.
Aquele lugar era o verdadeiro porão. Aquele era o medo real. Max recompôs-se e ficou de pé, prestes a voltar para trás das mantas. Desejou-lhes boa noite, mas não chegou a entrar embaixo da escada. Com a permissão da mão, Liesel ficou com el até de manhã, lendo Uma Canção no Escuro, enquanto ele desenhava e escrevia em seu caderno.
Numa janela da rua Himmel, escreveu Max, as estrelas puseram fogo em meus olhos.  

A menina que roubava livros
  "Existem vários corações batendo dentro do peito de um ser humano.
Corações de éter, de neve, de inverno, de gelo. Corações frios em busca de sentimentos que os aqueçam baseados em sentimentos muito mais fáceis de ser cantados do que realmente sentidos. De manifestações humanas que extrapolam o conceito cientifico e promovem sensações e entendimentos que aproximam aquele que é criado de seu Criador.
Essas manifestações nascem primeiro da dúvida promovida pela dor e fazem o mundo parecer menor do que é. E fazem também parecer a vida desse tamanho. Entretanto, nenhuma pessoa deveria acreditar que existe um tamanho para a vida, ou um tamanho para o mundo, ou para a energia que move esse mundo. 
Pois o homem sobrevive através do trabalho, mas vive através do sonho.
E o sonho nasce de sentimentos que só podem ser despertados através de uma busca. São sentimentos que nascem de uma resposta para uma dúvida que assola cada criatura oriunda de uma criação.Uma dúvida pela qual alguns homens poderiam morrer.
E muitos outros poderiam viver.
Mas quem seria capaz de morrer, ou viver, por uma pergunta e uma resposta? A resposta: depende da pergunta.
Mas depende muito mais da própria resposta. 
Uma resposta de uma dúvida ansiada por mortais e por semideuses.
Uma resposta procurada por criaturas e por criadores, em diversos locais onde ela não está.
Uma resposta capaz de mudar o mundo.
Quantas guerras serão necessárias para que tenhamos um pouco de paz?

Uma. No fim de todas as contas, será preciso apenas uma. Em longas trincheiras rodeadas de egos humanos.

Dentro de cada um dos nossos mais diferentes corações."
Dragões de Éter