Durante os lentos anos da minha infância, senti no gosto a frustração de habitar um mundo muito transparente. Os dias da minha casa não me encantavam com mistérios e segredos, as noites não me seduziam com absurdos e esquisitices.
Não era por falta de "cadê?". Eu bem que vasculhava por todos os cantos, mas não encontrava nunca uma passagem secreta, no quarto dos meus pais, em meus pais, em mim.
Lembro que, de vez em quando, eu chegava a sonhar com portas falsas, um fundo falso de gaveta, uma historia mal contada, qualquer coisa inexplicável pra me empolgar. Nada. A vida em minha casa deslizava cristalina, no jardim de rosas evidentes, na elegância fria do primeiro andar, nos corredores do segundo, tão eficazes e à-toa. Até mesmo o sótão, que eu tomava por companheiro de rebeldia e insatisfação, nada me revelou de extraordinário.
Só quando eu fiz nove anos é que eu fui atinar: os mistérios e absurdos que eu tanto não encontrava no dia-a-dia da minha casa estavam me esperando, aquele tempo todo, nos livros da sala de estar.
Naquelas páginas empoeiradas, eu passeei no sítio do Pica-pau Amarelo, viajei nos istos e aquilos, enfrentei o gênio do crime, faturei o caneco de prata, fiquei maravilhado de encantações e doideiras.
Eu tinha descoberto: a verdadeira passagem secreta estava escondida ali. Uma passagem discreta, encaixada entre versos e letras. Logo, logo, virei uma traça, devorei toda a literatura da casa.
Mas o melhor foi quando descobri que as páginas em branco dos cadernos não serviam só pra dever de casa. Elas me convidaram a enchê-las de historias, segredos e imaginação. Eu aprendi a ser aprendiz de poeta.
As pilhas fracas do tempo.
"A Literatura obedece a leis inflexíveis: a da herança, a do meio, a do momento." (Hippolyte Taine)
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Meu querido Ross
Hoje você me perguntou como parar de ser criança. Como se tornar um homem. Essas palavras me tocaram muito, pois me lembro de ter feito a mesma pergunta à minha mãe. "Como alguém sai da infância e começa a ser adulto?" Decidi escrever para você porque as cartas vêm da alma, de uma forma que as palavras faladas às vezes não conseguem.
Posso lhe dizer uma coisa, meu querido filho. Seja verdadeiro consigo mesmo. Seja sincero. Seja justo. Ame seus amigos e sua família. Trate-os com carinho e respeito. O mundo é cheio de complexidades e desafios, mas você conseguirá superá-los se lembrar de quem você é. No fim do dia, olhe para dentro da sua alma e se pergunte: "De alguma forma eu consegui mudar o mundo hoje para melhor?" Se puder dizer que sim, então você estará no caminho não somente para se tornar um homem, mas também para se tornar um homem bom. Amo você, Ross.
Sua mãe
Garotas da Rua Beacon - Cartas da Alma
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
- Meu Deus, Rudy...
Inclinou-se, olhou para seu rosto sem vida, e então beijou a boca de seu melhor amigo, Rudy Steiner, com suavidade e verdade. Ele tinha um gosto poeirento e adocicado. Um gosto de arrependimento á sombra do arvoredo e na penumbra da coleção de ternos do anarquista. Liesel beijou-o demoradamente, suavemente, e quando se afastou, tocou-lhe a boca com os dedos. Suas mãos estavam trêmulas, seus lábios eram carnudos, e ela se inclinou mais uma vez, agora perdendo o controle e fazendo um erro de cálculo. Os dentes dos dois se chocaram no mundo demolido da rua Himmel.
Liesel não disse adeus. Foi incapaz de fazê-lo, e após mais alguns minutos ao lado do amigo conseguiu levantar-se do chão. Fico impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando.
A menina que roubava livros
Toda minha vida, tive medo
de homens velando sobre mim.
Suponho que o primeiro homem a velar por mim tenha sido meu pai,
mas ele sumiu antes que eu pudesse recordá-lo.
Por alguma razão, quando eu era menino, gostava de brigar. Grande parte das vezes, eu perdia. Outro menino, ás vezes com sangue pingando do nariz, erguia-se acima de mim.
Muitos anos depois, precisei me esconder. Procurava não dormir, porque tinha medo de quem estaria lá quando eu acordasse.
Mas tive sorte. Era sempre meu amigo.
Quando estava escondido, eu sonhava com certo homem. O mais difícil foi quando viajei para ir ao encontro dele.
Por pura sorte e depois de muitas passadas, consegui.
Fiquei dormindo lá por muito tempo.
Três dias, disseram-me...
E o que encontrei ao acordar?
Não um homem, mas uma outra pessoa a me vigiar.
Com o passar do tempo, a menina e eu descobrimos que tínhamos coisas em comum.
Mas há uma coisa estranha.
A menina diz que eu pareço outra coisa.
Agora moro num porão.
Os sonhos ruins ainda vivem no meu sono.
Uma noite, após meu pesadelo habitual, uma sombra ergueu-se sobre mim. Ela disse: - Conte-me o que você sonha. - E eu contei.
Em troca, ela me explicou de que eram feitos seus próprios sonhos.
Agora, acho que somos amigos, essa menina e eu. Em seu aniversário, foi ela quem deu um presente - a mim.
Isso me fez compreender que o melhor vigiador que conheci não é um homem...
A menina que roubava livros
De outros abrigos vieram histórias de gente cantando "Deutschland über Alles" ou discutindo, em meio ao abafo de seu próprio hálito. Nada disso aconteceu no abrigo dos Fiedler. Nesse local, houve apenas medo e apreensão, além do canto mudo dos lábios de papelão de Rosa Hubermann.
Pouco antes de as sirenes assinalarem o fim, Alex Steiner - o homem do impassível rosto de madeira - persuadiu as meninas a soltarem as pernas de sua mulher. Conseguiu estender um braço e agarrar a mão livre do filho. Kurt, ainda estoico e de olhos fixos, segurou-a e apertou um pouquinho mais a mão da irmã.
EM pouco tempo, todo o mundo no porão estava de mãos dadas, e o grupo de alemães formava um círculo irregular. As mãos frias derretiam-se nas quentes e, em alguns casos, a sensação de outra pulsação humana era transportada. Atravessava as camadas de pele enrijecida e pálida. Alguns fecharam os olhos, à espera de extinção final, ou na esperança de um sinal de que o bombardeio havia enfim terminado.
Será que essas pessoas mereciam algo melhor?
Quantas delas haviam perseguido outras ativamente, seguindo o rastro do olhar de Hitler, repetindo suas frases, seus parágrafos, sua obra? Seria Rosa Hubermann responsável? Ela, que escondia um judeu? Ou Hans? Será que todos mereciam morrer? As crianças?
A resposta a cada uma destas perguntas me interessa muito, embora eu não possa permitir que elas me seduzam. Só achei que toda aquela gente deve ter intuído minha presença nessa noite, excetuadas as crianças menores. Eu era a sugestão. Eu era o conselho, com meus pés imaginários entrando na cozinha e descendo o corredor.
Como tantas vezes acontece com os seres humanos, ao ler a seu respeito nas palavras da menina que roubava livros, senti pena deles, embora não tanta quanto senti dos que recolhi em vários campos nessa época. Os alemães nos porões eram dignos de pena, sem dúvida, mas ao menos tinham uma chance. Aquele porão não era um banheiro. Eles não tinham sido mandados para lá para tomar banho. Para essas pessoas, a vida ainda era alcançável.
No círculo desigual, os minutos se escoaram, pesados.
Liesel segurava a mão de Rudy e a de sua mamãe.
Só um pensamento a entristecia.
Max.
Como Max sobreviveria, se as bombas chegassem á rua Himmel?
Olhando ao redor, ela examinou o porão dos Fiedler. Era muito sólido e consideravelmente mais profundo que o da rua Himmel, 33.
Em silêncio, ela fez a pergunta ao pai.
Você também está pensando nele?
Tenha ou não registrado a pergunta muda, Hans fez um rápido aceno de cabeça para a menina. Minutos depois, o aceno foi seguido pelas três sirenes da paz temporária.
As pessoas da rua Himmel, 45 arriaram de alívio.
Algumas fecharam os olhos e tornaram a abri-los.
Um cigarro passou de mão em mão.
No instante em que estava a caminho dos lábios de Rudy Steiner, foi arrancado por seu pai.
- Você não, Jesse Owens.
As crianças abraçaram seus pais, e levou muitos minutos para que todos percebessem plenamente que estavam vivos - e que continuariam vivos. Só então foi que seus pés subiram a escada, em direção à cozinha de Herbert Fiedler.
Lá fora uma procissão caminhava em silêncio pela rua. Muitos erguiam os olhos e agradeciam a Deus por sua vida.
Ao chegarem em casa, os Hubermann rumaram diretamente para o porão, mas Max aparentemente não estava. A lamparina parecia pequena e laranja, e eles não conseguiriam vê-lo nem ouvir uma resposta.
- Max?
- Ele sumiu.
- Max, você está aí?
- Estou aqui.
Originalmente, os três acharam que as palavras tinham vindo de trás das mantas de proteção e das latas de tinta, mas Liesel foi a primeira a vê-lo à sua frente.
O rosto calejado de Max camuflara-se entre o material de pintura e os panos. Ele estava sentado ali, com olhos e lábios perplexos.
Quando todos se aproximaram, voltou a falar.
- Não pude evitar - disse.
Foi Rosa quem respondeu. Agachou-se para fitá-lo.
- De que você está falando, Max?
- Eu... - lutou ele para responder. - Quando ficou tudo quieto, subi até o corredor, e havia uma frestinha aberta na cortina da sala... dava para eu ver o lado de fora. Espiei, só por alguns segundos.
Fazia vinte e dois meses que ele não via o mundo lá fora.
Não houve raiva nem censuras.
Foi o pai quem falou.
- E o que lhe pareceu?
Max levantou a cabeça, com enorme tristeza e enorme assombro.
- Havia estrelas - disse.- Elas queimaram meus olhos.
Quatro deles.
Duas pessoas de pé. As outras duas permaneceram sentadas.
Todas tinham visto uma ou duas coisas nessa noite.
Aquele lugar era o verdadeiro porão. Aquele era o medo real. Max recompôs-se e ficou de pé, prestes a voltar para trás das mantas. Desejou-lhes boa noite, mas não chegou a entrar embaixo da escada. Com a permissão da mão, Liesel ficou com el até de manhã, lendo Uma Canção no Escuro, enquanto ele desenhava e escrevia em seu caderno.
Numa janela da rua Himmel, escreveu Max, as estrelas puseram fogo em meus olhos.
A menina que roubava livros
"Existem vários corações batendo dentro do peito de um ser humano.
Corações de éter, de neve, de inverno, de gelo. Corações frios em busca de sentimentos que os aqueçam baseados em sentimentos muito mais fáceis de ser cantados do que realmente sentidos. De manifestações humanas que extrapolam o conceito cientifico e promovem sensações e entendimentos que aproximam aquele que é criado de seu Criador.
Essas manifestações nascem primeiro da dúvida promovida pela dor e fazem o mundo parecer menor do que é. E fazem também parecer a vida desse tamanho. Entretanto, nenhuma pessoa deveria acreditar que existe um tamanho para a vida, ou um tamanho para o mundo, ou para a energia que move esse mundo.
Pois o homem sobrevive através do trabalho, mas vive através do sonho.
E o sonho nasce de sentimentos que só podem ser despertados através de uma busca. São sentimentos que nascem de uma resposta para uma dúvida que assola cada criatura oriunda de uma criação.Uma dúvida pela qual alguns homens poderiam morrer.
E muitos outros poderiam viver.
Mas quem seria capaz de morrer, ou viver, por uma pergunta e uma resposta? A resposta: depende da pergunta.
Mas depende muito mais da própria resposta.
Uma resposta de uma dúvida ansiada por mortais e por semideuses.
Uma resposta procurada por criaturas e por criadores, em diversos locais onde ela não está.
Uma resposta capaz de mudar o mundo.
Quantas guerras serão necessárias para que tenhamos um pouco de paz?
Uma. No fim de todas as contas, será preciso apenas uma. Em longas trincheiras rodeadas de egos humanos.
Dentro de cada um dos nossos mais diferentes corações."
Dragões de Éter
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