segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O mito de Drácula reinventado num brilhante romance sobre o mal, a loucura e o desejo

O conde Laszlo, jovem e aristocrático médico húngaro, estabeleceu-se em Paris, em meados do século 19. Seu objetivo era conhecer as extraordinárias pesquisas sobre hipnose e a histeria, que agitavam a comunidade científica européia.
A estada de Laszlo na França, porém, será muito mais que uma viagem de estudos: fascinado tanto com as descobertas da medicina quanto a permissividade dos costumes, o rapaz mergulha num universo de loucura, dando vazão a impulsos até então desconhecidos. Aqui estão os seus diários: mostram um homem atormentado, que, ao penetrar nos labirintos da mente humana, descobre o lado mais obscuro de seu próprio ser.
Um lado que, uma vez libertado, provocará uma trilha de sangue, violência e morte...

-A vida secreta de Laszlo, Conde Drácula

domingo, 11 de março de 2012

Tudo o que ouvia, porém - tudo o que me permitia ouvir - ,era o pulsar do sangue na minha cabeça. Tudo que via era a pipa azul. O único cheiro que sentia era o da vitória. Salvação. Redenção. Se baba estivesse enganado, e existisse mesmo um Deus, como me diziam no colégio, então Ele ia deixar que eu vencesse. Não sabia com que objetivo o outro garoto estava competindo, talvez só para exibir os seus dotes. Mas, para mim, aquela era a única chance de me tornar alguém que era olhado, e não apenas visto; que era escutado, e não apenas ouvido. Se existia mesmo um Deus, Ele ia guiar o vento, deixar que soprasse para mim, e assim, com um puxão na corda, eu ia me livrar da minha dor, dos meus anseios. Tinha aguentado muito, chegado longe demais. E, de repente, em um piscar de olhos, a esperança virou certeza. Eu ia ganhar. Era só uma questão de tempo.
O caçador de pipas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Durante os lentos anos da minha infância, senti no gosto a frustração de habitar um mundo muito transparente. Os dias da minha casa não me encantavam com mistérios e segredos, as noites não me seduziam com absurdos e esquisitices.
Não era por falta de "cadê?". Eu bem que vasculhava por todos os cantos, mas não encontrava nunca uma passagem secreta, no quarto dos meus pais, em meus pais, em mim.
Lembro que, de vez em quando, eu chegava a sonhar com portas falsas, um fundo falso de gaveta, uma historia mal contada, qualquer coisa inexplicável pra me empolgar. Nada. A vida em minha casa deslizava cristalina, no jardim de rosas evidentes, na elegância fria do primeiro andar, nos corredores do segundo, tão eficazes e à-toa. Até mesmo o sótão, que eu tomava por companheiro de rebeldia e insatisfação, nada me revelou de extraordinário.
Só quando eu fiz nove anos é que eu fui atinar: os mistérios e absurdos que eu tanto não encontrava no dia-a-dia da minha casa estavam me esperando, aquele tempo todo, nos livros da sala de estar.
Naquelas páginas empoeiradas, eu passeei no sítio do Pica-pau Amarelo, viajei nos istos e aquilos, enfrentei o gênio do crime, faturei o caneco de prata, fiquei maravilhado de encantações e doideiras.
Eu tinha descoberto: a verdadeira passagem secreta estava escondida ali. Uma passagem discreta, encaixada entre versos e letras. Logo, logo, virei uma traça, devorei toda a literatura da casa.
Mas o melhor foi quando descobri que as páginas em branco dos cadernos não serviam só pra dever de casa. Elas me convidaram a enchê-las de historias, segredos e imaginação. Eu aprendi a ser aprendiz de poeta.
                                                                                                                              As pilhas fracas do tempo.
Meu querido Ross
Hoje você me perguntou como parar de ser criança. Como se tornar um homem. Essas palavras me tocaram muito, pois me lembro de ter feito a mesma pergunta à minha mãe. "Como alguém sai da infância e começa a ser adulto?" Decidi escrever para você porque as cartas vêm da alma, de uma forma que as palavras faladas às vezes não conseguem.
Posso lhe dizer uma coisa, meu querido filho. Seja verdadeiro consigo mesmo. Seja sincero. Seja justo. Ame seus amigos e sua família. Trate-os com carinho e respeito. O mundo é cheio de complexidades e desafios, mas você conseguirá superá-los se lembrar de quem você é. No fim do dia, olhe para dentro da sua alma e se pergunte: "De alguma forma eu consegui mudar o mundo hoje para melhor?" Se puder dizer que sim, então você estará no caminho não somente para se tornar um homem, mas também para se tornar um homem bom. Amo você, Ross.
Sua mãe 

Garotas da Rua Beacon - Cartas da Alma

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

- Meu Deus, Rudy...
Inclinou-se, olhou para seu rosto sem vida, e então beijou a boca de seu melhor amigo, Rudy Steiner, com suavidade e verdade. Ele tinha um gosto poeirento e adocicado. Um gosto de arrependimento á sombra do arvoredo e na penumbra da coleção de ternos do anarquista. Liesel beijou-o demoradamente, suavemente, e quando se afastou, tocou-lhe a boca com os dedos. Suas mãos estavam trêmulas, seus lábios eram carnudos, e ela se inclinou mais uma vez, agora perdendo o controle e fazendo um erro de cálculo. Os dentes dos dois se chocaram no mundo demolido da rua Himmel.
Liesel não disse adeus. Foi incapaz de fazê-lo, e após mais alguns minutos ao lado do amigo conseguiu levantar-se do chão. Fico impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando.

A menina que roubava livros
A maioria das pessoas acha que a morte é o fim.
O fim da vida - dos bons tempos -, o fim de...
bem, praticamente tudo.
Mas essas pessoas estão enganadas.
Completamente enganadas.
Eu sei muito bem. Faz quase um ano que morri.

Radiante
Toda minha vida, tive medo
de homens velando sobre mim.

Suponho que o primeiro homem a velar por mim tenha sido meu pai, 
mas ele sumiu antes que eu pudesse recordá-lo.

Por alguma razão, quando eu era menino, gostava de brigar. Grande parte das vezes, eu perdia. Outro menino, ás vezes com sangue pingando do nariz, erguia-se acima de mim.

Muitos anos depois, precisei me esconder. Procurava não dormir, porque tinha medo de quem estaria lá quando eu acordasse. 
Mas tive sorte. Era sempre meu amigo.

Quando estava escondido, eu sonhava com certo homem. O mais difícil foi quando viajei para ir ao encontro dele.

Por pura sorte e depois de muitas passadas, consegui.

Fiquei dormindo lá por muito tempo. 
Três dias, disseram-me...
E o que encontrei ao acordar? 
Não um homem, mas uma outra pessoa a me vigiar.

Com o passar do tempo, a menina e eu descobrimos que tínhamos coisas em comum.

Mas há uma coisa estranha.
A menina diz que eu pareço outra coisa.

Agora moro num porão.
Os sonhos ruins ainda vivem no meu sono.
Uma noite, após meu pesadelo habitual, uma sombra ergueu-se sobre mim. Ela disse: - Conte-me o que você sonha. - E eu contei.

Em troca, ela me explicou de que eram feitos seus próprios sonhos.

Agora, acho que somos amigos, essa menina e eu. Em seu aniversário, foi ela quem deu um presente - a mim.
Isso me fez compreender que o melhor vigiador que conheci não é um homem... 
A menina que roubava livros